A luz
clara espreitava pelo canto da janela velha e uma sombra era formada no soalho
do quarto. Toby abriu cuidadosamente a porta, tentando evitar o ranger
provocado pela idade, olhando fixamente cada objeto presente e estudando o
mistério daquele silêncio profundo.
Com o
passar das horas, a luz tornava-se cada vez mais forte, fazendo despertar o
desejo de abrir a janela e ficar a observar o mundo incerto que o rodeava no
exterior daquela casa.
Os
dias iam passando, todos iguais; o silêncio reinava na casa e apenas se
quebrava com a forte respiração do homem.
Toby ficara
velho com o passar dos anos, a alegria de ter vindo ao mundo desvanecera-se e
os seus olhos mostravam cada segundo de solidão passada em toda a sua vida. Ele
era de estatura média, olhos esverdeados com um ligeiro brilho cinza e com uma
expressão indefinida.
Os
seus dias estavam a terminar: sentia o frio a subir-lhe pelo corpo, a voz rouca
e a força a despedir-se. Decidiu, então, ser feliz pelo menos uma vez na vida,
abrindo aquela velha janela, coberta de pó e teias de aranhas que brilhavam no
escuro, à procura de um pouco mais do que os livros lhe tinham contado. Ao fazê-lo,
descobriu que não podia ficar à espera que a morte chegasse, tinha de enfrentar
a solidão e arriscar, descobrir coisas novas, procurar desafios e ser feliz.
Quando
finalmente conseguiu abrir a janela, Toby caiu no chão, pálido, frio, espantado
por ter de dizer adeus à vida naquele momento, que fora o mais belo de toda a
sua vida, mas mostrando uma expressão de satisfação pelo seu último ato.
Ângela Sousa