sexta-feira, 2 de maio de 2014

O Último Ato


         A luz clara espreitava pelo canto da janela velha e uma sombra era formada no soalho do quarto. Toby abriu cuidadosamente a porta, tentando evitar o ranger provocado pela idade, olhando fixamente cada objeto presente e estudando o mistério daquele silêncio profundo.
         Com o passar das horas, a luz tornava-se cada vez mais forte, fazendo despertar o desejo de abrir a janela e ficar a observar o mundo incerto que o rodeava no exterior daquela casa.
         Os dias iam passando, todos iguais; o silêncio reinava na casa e apenas se quebrava com a forte respiração do homem.
         Toby ficara velho com o passar dos anos, a alegria de ter vindo ao mundo desvanecera-se e os seus olhos mostravam cada segundo de solidão passada em toda a sua vida. Ele era de estatura média, olhos esverdeados com um ligeiro brilho cinza e com uma expressão indefinida.
         Os seus dias estavam a terminar: sentia o frio a subir-lhe pelo corpo, a voz rouca e a força a despedir-se. Decidiu, então, ser feliz pelo menos uma vez na vida, abrindo aquela velha janela, coberta de pó e teias de aranhas que brilhavam no escuro, à procura de um pouco mais do que os livros lhe tinham contado. Ao fazê-lo, descobriu que não podia ficar à espera que a morte chegasse, tinha de enfrentar a solidão e arriscar, descobrir coisas novas, procurar desafios e ser feliz.

         Quando finalmente conseguiu abrir a janela, Toby caiu no chão, pálido, frio, espantado por ter de dizer adeus à vida naquele momento, que fora o mais belo de toda a sua vida, mas mostrando uma expressão de satisfação pelo seu último ato. 
Ângela Sousa 

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