domingo, 27 de abril de 2014

A Doença dos Ossos de Cristal

Uma em cada 21 mil crianças possui a doença dos Ossos de Cristal, vulgarmente conhecida por doença dos Ossos de Vidro, devido à fragilidade dos ossos que constituem o corpo da criança. Ainda assim, a recuperação e a reconstituição das fraturas processam-se da mesma forma das outras crianças. É uma doença hereditária que resulta da falta de uma proteína que, depois do cálcio, é o principal constituinte dos ossos.
         Sendo esta uma doença rara e pouco conhecida, ainda pode ter vários graus de gravidade: um grau leve e um grau extremamente severo, prejudicial para a criança. O grau leve verifica-se quando, na infância, a criança tem várias fraturas. No grau extremamente severo, o bebé tem a probabilidade de morrer no útero materno ou no momento em que se procede ao parto.
         Consequentemente, existem alguns sintomas como os acurvamentos dos ossos e o seu insuficiente crescimento. Estes, por sua vez, provocam a estatura baixa, a tonalidade azulada da esclera do olho, o rosto triangular, deficiência auditiva, dentes frágeis, flexibilidade das articulações, imensa sudorese e, ainda, os músculos mais débeis.
         Mesmo não existindo cura para esta rara doença, há determinados tratamentos. Existe um tratamento que proporciona mais segurança e, naturalmente, mais independência e mobilidade, que consiste numa medicação designada Bisfosfonatos e que diminui a dor e as fraturas das pessoas.
         E se vos disser que anteriormente falei de uma doença muitíssimo rara e interessante? Acreditam? Confesso que, no início, senti bastante curiosidade em saber um pouco mais sobre esta síndrome. Para pessoas muito frágeis a nível emocional, é uma doença bastante complicada de lidar e aceitar… E talvez bastante assustadora…
         Sinceramente, a doença dos Ossos de Cristal possui inúmeros aspectos negativos, tais como: fraturas, dificuldade na audição, etc.
         Ainda assim, a boa notícia é que graças ao avanço da medicina, já foram criados métodos de tratamento para que estas crianças levem uma vida saudável e o mais normal possível, não colocando de parte o facto de a sua inteligência não ser afetada.
         Pondo-me na ‘pele’ de mãe e de pai, considero que é extremamente difícil ver os nossos filhos com fraturas e imaginar a dor que eles suportam cada vez que isso acontece. Portanto, os pais ou familiares das crianças que possuem esta doença devem proceder da seguinte forma:
         - Sob orientação médica, submeter os portadores desta síndrome à hidroterapia;
         - Com este tipo de síndrome, por mais atentos e cuidadosos que sejam os pais, as fraturas acabam por acontecer, mais cedo ou mais tarde. Como tal, é necessário aceitar que, ao longo da sua vida, momentos instáveis como estes, irão ocorrer;
         - Como sinais de uma fratura, deve-se prestar muita atenção quando a criança chorar ou gemer inesperadamente. Pode ainda, não conseguir movimentar algum membro do seu corpo ou ter algum inchaço e calor nalguma parte do corpo.
         Tendo em conta tudo o que foi dito anteriormente, há exemplos de pessoas que são portadoras desta síndrome, mas que, com muita força de vontade, coragem e determinação, vivem um dia de cada vez como se fosse o último da sua vida.
Um dos exemplos mais conhecidos é o de uma mulher chamada Ana Simão que nasceu em 1965, em Santarém. É portadora desta doença rara, Osteogénese Imperfeita (OI). Trabalhou na Câmara Municipal de Santarém, onde exerceu funções na área da cultura, turismo e ação social. Escreve para a revista da APOI (Associação Portuguesa de Osteogénese Imperfeita) e para a Associação Salvador. Após vinte e cinco anos de trabalho e três internamentos hospitalares consecutivos, aposentou-se por invalidez. Nesse momento, descobriu que há milagres e que a escrita, apesar de não salvar ninguém, dá-lhe esperança e alegria para continuar.
O livro que escreveu “A menina dos Ossos de Cristal” é um inspirador testemunho de vida, que agora quer partilhar. Testemunha a real e apaixonante vida de uma menina que venceu todo o sofrimento e se fez mulher numa história de luta e persistência.
Neste livro, Ana Simão conta a vida de uma menina chamada Inês que nasceu com uma doença rara designada Osteogénese Imperfeita (OI), que aos catorze anos de idade o seu corpo já tinha sido sujeito a mais de cem fraturas. “Esta menina não se deixou vencer pelo medo: nem quando quis dar os primeiros passos e não conseguiu, nem quando todas as crianças corriam e brincavam e ela estava numa cama de hospital. Da perda da inocência nas mãos de um curandeiro, passando pela enorme luta da família para não a perder, até à licenciatura conquistada a pulso, a vida da Menina dos Ossos de Cristal transforma-se, diante dos nossos olhos, no triunfo de uma mulher que, contra todas as expectativas, consegue vencer.”
         E agora eu penso: será fácil viver e lidar com a doença dos Ossos de Cristal sabendo que a qualquer momento, em qualquer lugar e a qualquer hora, podemos fazer uma fratura e ter de regressar, mais uma vez, para uma horrível e enfadonha cama de hospital? Será assim tão simples lutar contra esta síndrome, mesmo que ‘montes’ de gente nos discriminem, tenham pena de nós ou até não sintam nenhum tipo de amizade por nós?
         Uma pergunta retórica é uma pergunta para a qual a pessoa que a fez já sabe a resposta. No entanto, não creio que possamos considerar as nossas questões com este termo. Nós não sabemos a resposta. O facto é que, a partir do momento em que conhecemos uma pessoa como a Ana Simão ou a Inês, ficamos a perceber o que é ser pessoa através das suas longas conversas. Quando olhamos lá bem no fundo do seu olhar, por detrás daquela pessoa que está cansada de sofrer, existe um pequeno mas expressivo coração… Aí, sim! Aí, nós ficamos com o coração repleto de amor e força para ‘dar e vender’. E é nesse momento, que encontramos a resposta para todas as nossas interrogações… É aí que nós percebemos que, acima de tudo, estas pessoas sabem que alguém as ama, que alguém as admira ou até que alguém se serve de fonte de inspiração para ter uma razão de viver. Assim, nós percebemos que o que importa não é o que as pessoas pensam ou dizem, mas sim aquilo que vem de dentro do coração dos sinceros, dos misericordiosos, dos puros de coração e daqueles que, acima de todas as coisas, gostam de nós e sentem algum carinho e preocupação.
         Anteriormente referi o facto de aprendermos a ser pessoa com a sua enorme sabedoria… Mas afinal, o que é ser pessoa com os olhos de quem é portador de uma doença? O homem não é uma coisa: não é, portanto, um objeto que possa ser utilizado simplesmente como um meio, mas, pelo contrário, deve ser considerado sempre, em todas as suas ações como um fim em si mesmo.
         Quanto à questão sobre a discriminação, afinal o que é discriminar os outros? Discriminar o outro é aperceber-se das diferenças dos outros/discernir os outros ou tratá-los de forma desigual, por motivos relacionados com as suas características pessoais específicas. Será isto certo? Será isto aquilo que todos devem fazer? Coloquem-se na ‘pele’ daquele que sofre, daquele que sente, daquele que, independentemente do que o rodeia, ama e dá valor à vida que Deus lhe concedeu. Na ‘pele’ daquele que sabe valorizar o bem que é a vida… E então? O que se obtém? Obtêm-se duas palavras muitíssimo simples mas sensatas e prudentes, que são: dor e mágoa.
         Quanto àquelas que não sentem qualquer tipo de amizade ou carinho por nós, eu só tenho uma coisa a perguntar-lhes: o que é para vós a amizade? Certamente, a resposta obtida é: estar com o outro. Será isso amizade? Não! E as pessoas que, infelizmente se veem confrontadas com a síndrome dos Ossos de Cristal são algumas das pessoas que sabem dizer a verdadeira resposta. Amizade é a relação afetiva entre os indivíduos. É o relacionamento que as pessoas têm de afeto e carinho por outra, que possuem um sentimento de lealdade, proteção, etc. O que acontece é que a amizade não precisa de acontecer com pessoas exatamente iguais, com os mesmos gostos e vontades, e em certos casos é exatamente esse o facto que os une. A amizade tem a função de acrescentar ao outro, com as suas ideias, momentos de vida, informações, etc, ou é apenas ter alguém para dividir momentos e sentimentos.
         Quanto aos que têm pena de nós, pode-se dizer que tenham dó de nós… Ainda que seja dado, por vezes, por instinto, não considero que os emissores deste sentimento sejam muito bons em filosofia e na escolha do melhor para o próximo… Pode ser transmitido com boas intenções, mas por parte do recetor é um pouco complicado viver com isto, talvez porque tenta esquecer o facto com que é obrigado a viver e, assim, acaba por se dar conta que é realmente diferente… Elas pensam: se demonstrar que tenho pena dele, que estou preocupado com ele, talvez ele se sinta melhor por saber que tem alguém com quem pode contar, com quem pode desabafar… Não é fácil estar com uma pessoa que é portadora de uma síndrome, seja lá qual for. É necessário ter precauções do ponto de vista emocional, pois podemos ferir os seus sentimentos. No final, essa pessoa acaba por se cansar de ser diferenciada pelos outros que a rodeiam.
Disse a alguém, há algum tempo, que a escrita, se não salva ninguém, dá-lhe esperança e alegria para continuar. Penso que foi uma das coisas mais acertadas que disse em toda a minha vida, pois conhecer um ser humano como a Ana Simão fez-me refletir sobre isto. Na vida de um Homem, a escrita desempenha um papel extremamente importante. Nós escrevemos como quem ama, ninguém sabe por que ama, nós não sabemos por que escrevemos também; no fundo, escrevo sobre aquilo que não sei, para ficar a saber; a escrita nada mais é do que um sonho portador de conselhos; quem escreve nunca se satisfaz com o que escreveu e talvez esta seja a melhor motivação do ato de escrever: um texto escrito é sempre promessa do texto que não se escreveu. A prática da escrita não deve ficar limitada aos estudantes, nem aos que dominam a forma culta. “Escrever vai muito além das regras impostas por qualquer sistema teórico ou didático: é um modo privilegiado de se descobrir e desvendar humanamente a experiência imperdível de viver”.
Bem lá no fundo, todos sentem vontade de escrever, porque a escrita resulta de uma motivação natural de fazer com que a experiência individual de cada um se torne um meio de comunicação com o mundo. Só é necessário um incentivo, um pequeno empurrão… “Acredito que crianças, jovens e muitos adultos que vivem com pessoas que valorizam e são entusiasmadas com o mundo dos livros e da escrita têm mais oportunidade de viver a sustentabilidade das palavras enquanto leitores, escritores.”.
Com isto, queria dizer que, como Ana Simão, muitas outras pessoas sem qualquer tipo de deficiência, encontram na escrita uma forma de sonhar, uma forma ser livre e uma forma de desabafar com alguém.
Não sei se tudo o que disse ao longo deste texto foi, de facto, o mais acertado ou não, mas o que tenho a certeza absoluta é que dei a minha opinião enquanto mulher, enquanto ser humano, enquanto vida, pois é aquilo que sou… Baseando-me em exemplos notáveis de homens e mulheres que vivem a vida que lhes foi concedida. Não é fácil! Eu também sei reconhecer que não é propriamente simples cuidar de nós e ainda sobrar força, coragem e amor para oferecer aos que precisam. Foi neles que me inspirei para escrever este longo texto de opinião.
Em suma, “A Menina dos Ossos de Cristal” de Ana Simão é muito mais do que um livro sobre a experiência desta doença. É um livro sobre a vontade de viver uma vida plena, repleta de amor, superando as mais injustas e feias adversidades. Assim, posso terminar este texto com uma simples mas sábia frase rara: amor é poder.
Beatriz Boiça


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