A vida é feita de etapas, há boas
etapas e más etapas. Saber lidar com elas é um dom que poucas pessoas possuem.
Eles dizem que o que não nos mata torna-nos fortes, mas o que não me matou
também não me tornou forte.
É difícil lidar com as más etapas da
nossa vida, não é uma coisa em que eu seja boa. Desistir foi sempre o que eu
fiz, logo que me apareceu o primeiro obstáculo. Fraca? Talvez. É duro saber que
nunca iremos ser bons o suficiente para enfrentar as dificuldades. Todos dizem
para sermos como somos, mas somos julgados por o tentarmos. A minha vida pode
ser exemplificada como um precipício, independentemente do passo que eu der,
posso cair e não vou ter ninguém para me agarrar. A vida é injusta!
Acordei e, sinceramente, a minha
vontade de abrir os olhos diminuiu gradualmente. A minha vontade de viver
diminuiu gradualmente. Talvez estou a ser dramática demais, mas é o que estou a
sentir. Viver era suposto ser agradável, mas por que é que para mim não é? Há
algo de errado comigo? É tão complicado saber que, por algum motivo, eu não sou
boa o suficiente e nunca o vou ser. A cada dia da minha vida, tudo piora.
Levantei-me e fui vestir a minha roupa.
À minha frente estava um espelho e enquanto tirava o meu pijama, eu observava o
meu corpo.
Gorda,
gorda, gorda!
O meu subconsciente gritava, pausadamente, e sem
eu perceber os meus olhos ganhavam um líquido transparente. A dor apoderou-se
de mim de uma forma indescritível. Eu não consigo aguentar isto. É muita coisa.
Alguém
bateu à minha porta e eu, num movimento inconsciente, limpei as lágrimas e
visti a minha roupa.
- Podes entrar!- gritei.- A pessoa que
se encontrava fora do meu quarto entrou.
- Querida, vais chegar tarde à escola…
- Mãe, eu sei. Ok? Pára de andar sempre
a chatear-me!
- Emily, eu só quero o teu bem. Meu
Deus! Estás tão magra!- exclamou com uma mão à frente da sua boca.
- Pára! Pára! Saí do meu quarto!-
gritei, empurrando-a para fora do meu quarto.
Já não sei mais o que fazer, algumas
pessoas dizem que estou magra e outros dizem que estou gorda. É que se fosse só
o problema do peso… O problema é que eu sou tudo e mais alguma coisa. Comecei a
chorar e fui à minha casa de banho. Olhei para o espelho, que se encontrava
acima dos lavatórios. Os meus olhos grandes e verdes encontravam-se escuros, os
meus lábios carnudos e vermelhos, encontravam-se desenhados numa simples linha
de um cor- ‑de-rosa morto, a minha pele estava pálida.
Não
serves para nada! Inútil! És tão feia! Nunca, mas nunca, ninguém te vai amar!
Todos te odeiam, não vês?
O
meu subconsciente gritava repetidamente. Agarrei num copo que continha água
para bochechar e joguei-o contra o espelho. O espelho dividiu-se em pequenos
vidros no chão. Deslizei entre os lavatórios e alguns vidros magoaram-me,
criando feridas na minha pele. Senti um pouco de dor e, de repente, toda a dor
que sentia desviou-se para as minhas mini feridas. Naquele momento, tinha
encontrado a solução para a dor da minha alma. Peguei num caco que estava ao
meu lado, fechei os meus olhos e espetei o vidro na minha pele. Como por magia
toda a minha dor desapareceu. Voltei a fazer umas quantas vezes o mesmo ato. O
sangue escorria pelo caco e pelo meu braço. As lágrimas secavam. Voltei a fazer
a mesma coisa e tudo começava a rodar. Fechei os meus olhos e já não os
conseguia abrir. Tudo começou a ficar escuro e nem pensar eu conseguia. Por
momentos, pensei que tinha entrado no paraíso, onde ninguém me poderia julgar.
Depois, abri, lentamente, os meus
olhos.
Daniela Lameirinhas
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