terça-feira, 8 de abril de 2014

Lágrimas com cor


         A vida é feita de etapas, há boas etapas e más etapas. Saber lidar com elas é um dom que poucas pessoas possuem. Eles dizem que o que não nos mata torna-nos fortes, mas o que não me matou também não me tornou forte.
         É difícil lidar com as más etapas da nossa vida, não é uma coisa em que eu seja boa. Desistir foi sempre o que eu fiz, logo que me apareceu o primeiro obstáculo. Fraca? Talvez. É duro saber que nunca iremos ser bons o suficiente para enfrentar as dificuldades. Todos dizem para sermos como somos, mas somos julgados por o tentarmos. A minha vida pode ser exemplificada como um precipício, independentemente do passo que eu der, posso cair e não vou ter ninguém para me agarrar. A vida é injusta!
         Acordei e, sinceramente, a minha vontade de abrir os olhos diminuiu gradualmente. A minha vontade de viver diminuiu gradualmente. Talvez estou a ser dramática demais, mas é o que estou a sentir. Viver era suposto ser agradável, mas por que é que para mim não é? Há algo de errado comigo? É tão complicado saber que, por algum motivo, eu não sou boa o suficiente e nunca o vou ser. A cada dia da minha vida, tudo piora.
         Levantei-me e fui vestir a minha roupa. À minha frente estava um espelho e enquanto tirava o meu pijama, eu observava o meu corpo.
         Gorda, gorda, gorda!
         O meu subconsciente gritava, pausadamente, e sem eu perceber os meus olhos ganhavam um líquido transparente. A dor apoderou-se de mim de uma forma indescritível. Eu não consigo aguentar isto. É muita coisa.
         Truz, truz, truz!
         Alguém bateu à minha porta e eu, num movimento inconsciente, limpei as lágrimas e visti a minha roupa.
         - Podes entrar!- gritei.- A pessoa que se encontrava fora do meu quarto entrou.
         - Querida, vais chegar tarde à escola…
         - Mãe, eu sei. Ok? Pára de andar sempre a chatear-me!
         - Emily, eu só quero o teu bem. Meu Deus! Estás tão magra!- exclamou com uma mão à frente da sua boca.
         - Pára! Pára! Saí do meu quarto!- gritei, empurrando-a para fora do meu quarto.
         Já não sei mais o que fazer, algumas pessoas dizem que estou magra e outros dizem que estou gorda. É que se fosse só o problema do peso… O problema é que eu sou tudo e mais alguma coisa. Comecei a chorar e fui à minha casa de banho. Olhei para o espelho, que se encontrava acima dos lavatórios. Os meus olhos grandes e verdes encontravam-se escuros, os meus lábios carnudos e vermelhos, encontravam-se desenhados numa simples linha de um cor- ‑de-rosa morto, a minha pele estava pálida.
         Não serves para nada! Inútil! És tão feia! Nunca, mas nunca, ninguém te vai amar! Todos te odeiam, não vês?
         O meu subconsciente gritava repetidamente. Agarrei num copo que continha água para bochechar e joguei-o contra o espelho. O espelho dividiu-se em pequenos vidros no chão. Deslizei entre os lavatórios e alguns vidros magoaram-me, criando feridas na minha pele. Senti um pouco de dor e, de repente, toda a dor que sentia desviou-se para as minhas mini feridas. Naquele momento, tinha encontrado a solução para a dor da minha alma. Peguei num caco que estava ao meu lado, fechei os meus olhos e espetei o vidro na minha pele. Como por magia toda a minha dor desapareceu. Voltei a fazer umas quantas vezes o mesmo ato. O sangue escorria pelo caco e pelo meu braço. As lágrimas secavam. Voltei a fazer a mesma coisa e tudo começava a rodar. Fechei os meus olhos e já não os conseguia abrir. Tudo começou a ficar escuro e nem pensar eu conseguia. Por momentos, pensei que tinha entrado no paraíso, onde ninguém me poderia julgar.

         Depois, abri, lentamente, os meus olhos.
Daniela Lameirinhas

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