quarta-feira, 18 de junho de 2014

A Cor da Amizade



         Primeiro dia de escola. Cidade nova, escola nova, amigos novos… Tudo ia começar de novo. Tinha que enfrentar de novo as miúdas loucas, magrinhas a chamarem-me gorda, os rapazes a gozar comigo….
         - Maria, desce para tomar o pequeno-almoço – chamou a mãe.
         Desci as escadas e lá estavam aquelas tentações todas que, cada vez que as levava à boca, me faziam engordar 1 kg. Será que a mãe não percebe que aquilo é uma tentação à qual não consigo resistir? Será que ela não percebe que não é a dar-me de comer aquilo que vou emagrecer como ela diz? Não se percebem as mães. Querem que emagrecemos e só nos dão coisas cheias de calorias para engordar!
         Entrada da escola. A mãe começou a apitar e a dizer-me adeus. Que mau começo. A minha intenção de não dar nas vistas tinha ido por água abaixo. Agora só faltava encarar a situação da melhor maneira, ignorando os comentários.
         Chegou uma rapariga ao pé de mim a dizer-me olá. Não podia ser verdade. Ela era magrinha, tinha as curvas perfeitas e, de cada vez que passávamos por um rapaz, este assobiava-lhe.
         - Olá! Chamo-me Joana. Sou nova na escola. Será que me podes fazer uma pequena visita guiada?
         Tudo explicado. Nova na escola e sem amigos. Embora por pouco tempo, pois com aquele corpo e aquela cara todos iam querer andar com ela. Ignorei-a. Não queria que ela fosse gozada logo no seu primeiro dia.
         - És de que turma? – continuou a rapariga.
         Continuei a ignorar.
         - Eu sou do 10ºA. E tu?
         O melhor era responder, antes que ela fosse vista mais tempo comigo.
         - Também sou do 10ºA. Mas agora é melhor afastares-te e não falares mais para mim. Acredita! Não vais querer ser vista comigo!
         - Porquê? – perguntou a rapariga sem perceber nada.
         Mas será que ela não percebia que se fosse vista comigo nunca mais ia ser vista com olhos de ver? Esta rapariga não pensa….
         Puxei-a para um canto.
         - Será que tu não pensas? Será que não sabes que se fores vista comigo vais ser gozada para o resto da vida? Deixaste o cérebro em casa?
         - O que é que estás para aí a dizer? – perguntou Joana, admirada.
         - Eu sou gorda. Ninguém gosta das pessoas gordas.
         Fiquei admirada! Ela estava a sorrir. Mas que piada tinha aquilo? Esta rapariga não é mesmo boa da cabeça….
         - Estás parva? Ser gorda não é nenhuma doença, é apenas um aspeto físico. Sinceramente, a mim as aparências não importam… O que importa é o que vem de dentro e tu pareces-me muito simpática e muito boa pessoa. Vem, vamos conhecer o resto da escola.
         Fiquei pasmada a olhar para ela. Ela era simpática e não me julgou pela minha aparência. Tinha a certeza que íamos ser boas amigas para o resto da vida.
         Uma vontade súbita de a abraçar veio-me à cabeça e não hesitei em fazê-lo.


Beatriz Cruz_nº6

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